ÚLTIMAS
NOTÍCIAS

O conteúdo desta página só pode ser visualizado na vertical!


imagem
Revista PORT.COM • 07-Jan-2017
Morreu Mário Soares, um dos símbolos da democracia portuguesa



Portugal despede-se de uma das maiores figuras da história do país no século XX. Vigoroso opositor do regime salazarista, fundador do PS, primeiro-ministro durante dois mandatos, também duas vezes eleito Presidente da República. Assinou a entrada de Portugal na CEE, nunca foi de ficar parado.

Mário Soares morreu, este sábado (7 de janeiro), aos 92 anos, no Hospital da Cruz Vermelha, unidade hospitalar lisboeta na qual havia sido internado a 13 de dezembro. Desde então que permanecia em coma profundo. O ex-Presidente da República Portuguesa faleceu sensivelmente um ano e meio após a morte da sua esposa, Maria Barroso, a 7 de julho de 2015.

Portugal despede-se assim de um dos estadistas portugueses mais conhecidos na Europa e no mundo, nascido a 7 de dezembro de 1924, em Lisboa, no seio de uma família burguesa. O seu pai, João Soares, foi ministro na I República. O ambiente familiar favoreceu uma formação onde a política e a preocupação pelos assuntos públicos esteve sempre presente.

A tradição familiar de ação política teve continuidade com o casamento com Maria Barroso e nos filhos, Isabel e João, este último ex-presidente da Câmara Municipal de Lisboa e ex-ministro da Cultura do atual governo português.

 

Estudante anti ditadura

A Universidade de Lisboa, concretamente as duas faculdades em que estudou e se licenciou (Letras e Direito), assistiram ao compromisso político anti ditadura de Mário Soares. À época, a universidade constituía um certo ghetto contestatário em defesa das liberdades anuladas pelo poder político.

Por volta dos 20 anos de idade, Soares colaborou em várias tentativas para aglutinar pessoas e grupos contra a ditadura. Foi assim no MUNAF (Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista), em 1943, e no MUD (Movimento de Unidade Democrática), em 1946. Também participou em duas grandes mobilizações a favor de candidaturas não-oficiais para Presidência da República: a campanha do general Norton de Matos (1948) e posteriormente a do general Humberto Delgado (1958).

Alguns anos mais tarde, quando o “General Sem Medo” foi assassinado pela PIDE na fronteira espanhola, Soares assumiu o papel de advogado de acusação.

 

O exílio em Paris

A oposição vincada ao regime de Salazar obrigou Mário Soares a viver vários anos fora de Portugal. Depois do desterro em São Tomé, em 1968, exilou-se em Paris. Em França deu aulas, organizou reuniões políticas e aproveitou para visitar muitas das capitais europeias, de forma a travar contacto com os partidos socialistas e sociais-democratas e com os seus líderes.

Não tardou a ficar conhecido na Europa como o mais conhecido dirigente oposicionista ao regime de Salazar. Na maioria dos países europeus não havia grande otimismo a um futuro próximo democrático em Portugal.

Mário Soares ainda residia na capital francesa quando, em 1974, se dá o 25 de Abril, a “Revolução dos Cravos”.

 

De fundador do PS a Presidente da República

No regresso a Lisboa, era Mário Soares quem dissipava as dúvidas iniciais sobre a revolução. Militares democratas e o povo fundiram-se num processo de mudança pacífica, com o contributo de todos os partidos políticos democráticos, entre os quais o Partido Socialista (PS), do qual Soares foi fundador e mentor, em abril de 1973, na cidade alemã de Bad Münstereifel.

Secretário-geral do PS, deputado em todas as legislaturas até 1986, ministro dos Negócios Estrangeiros nos três primeiros governos provisórios, primeiro-ministro de 1976 a 1978 e de 1983 a 1985, desempenhou sucessivamente papéis políticos de relevo.  Foi Soares que, a 12 de junho de 1985, assinou o tratado de adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE).

A consolidação da democracia e a entrada na CEE foram dois processos, nos quais Mário Soares teve um papel de relevo, que permitiram a Portugal mudar de face, tanto a nível interno, progredindo no seu desenvolvimento e modernização, como a nível internacional, onde a presença do país se torna mais notória.

De país penalizado pela sua conceção colonialista passa a ser país democrático, que defende causas justas com algum êxito. Era este o retrato de Portugal quando Soares alcançou a Presidência de República, em 1986, cargo no qual foi reeleito em 1991, para novo mandato, até 1996. Durante este período coincidiu com dois primeiros ministros, Cavaco Silva (eleito pelo PSD) e António Guterres (PS).

 

Chaves de Lisboa recebidas este ano

Depois de ter sido uma das figuras mais importantes da história de Portugal no século XX, Mário Soares ainda chegou a concorrer a um terceiro mandato como Presidente da República, já no século XXI, em 2006. Tinha 81 anos. Não venceu, terminando em terceiro lugar, atrás de Cavaco Silva e Manuel Alegre. No ano seguinte seria nomeado presidente da Comissão de Liberdade Religiosa. Nunca foi de ficar parado.

Nas comemorações deste ano do 25 de Abril, o presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, entregou a Mário Soares a chave da cidade de Lisboa, a mais alta distinção atribuída pelo município a personalidades com relevância nacional e internacional.

A cerimónia decorreu na Fundação Mário Soares, instituição que, desde 1991, promove e patrocina ações de caráter cultural, científico e educativo nos domínios dos direitos humanos, da ciência política e das relações internacionais.

Nesse dia, 42 anos após a Revolução dos Cravos, Mário Soares já ostentava uma aparência debilitada. Medina salientou que “entre os construtores da democracia portuguesa, Mário Soares ocupa um lugar muito especial. A minha geração deve-lhe muito”.

As gerações vindouras certamente também ouvirão falar da história e legado de Mário Soares, um dos maiores símbolos da democracia portuguesa.

 


Etiquetas
Partilhar

OPINIÃO
Portugal, o segundo país da Europa com mais emigrantes
Daniel Bastos
Historiador
As Comunidades Portuguesas e os Municípios
Paulo Pisco
Deputado do PS eleito pelas comunidades
Mercado Imobiliário: Algarve, destino de eleição para portugueses e franceses
Pedro Rosa
Consultor imobiliário
DISCURSO DIRETO
Depois de África e América, viver no Reino Unido
Tiago Oliva
REINO UNIDO
A aventura de trabalhar na Argélia
Pedro Miguel Ramos
ARGÉLIA
Um MBA na China, uma experiência internacional
Filipe Castro
CHINA
REDES SOCIAIS
GALERIA DE FOTOS
QUIZ